Food Trend Analyst & Creative Producer
SEA ACTIVISM
Depois de mais de uma década dentro de cozinhas, saí de Oslo de bicicleta com Lisboa como destino e acabei, poucas semanas depois, a bordo da Arka Kinari, um veleiro, palco e projeto artístico movido a energia renovável.
Durante cerca de um ano a bordo da Arka Kinari, atravessei o Atlântico, as Caraíbas, o Canal do Panamá e grande parte do Pacífico até à Indonésia, trabalhando como cozinheiro e marinheiro. Cozinhar no mar obrigou-me a pensar de outra forma sobre conservação, sazonalidade, abastecimento, desperdício e relação direta com produtores, mas foi sobretudo a viagem que transformou a forma como passei a olhar para os sistemas económicos, políticos e ecológicos à nossa volta.

Em Cabo Verde encontrei uma diversidade cultural e uma vida comunitária extraordinárias, amplificadas pelo facto de ter chegado a Mindelo durante um dos maiores festivais de teatro de África. Na Venezuela ficámos hospedados numa base militar ligada ao controlo do narcotráfico; no Panamá ancorámos num porto onde uma das mercadorias mais transacionadas eram trabalhadoras do sexo; no México encontrámos uma generosidade difícil de esquecer, ao mesmo tempo que tivemos de subornar políticos para conseguirmos continuar.
Out in the Big Blue
Two years at sea, somewhere between food, friendship, politics and a world pandemic
Sea activism
Saí de Oslo de bicicleta com Lisboa como destino e, quando cheguei a San Sebastián, dois meses, vários países, alguns pneus furados, muitos reencontros e quantidades pouco recomendáveis de pintxos e txakoli depois, recebi uma proposta para me juntar a um barco nas Canárias.
Dez dias mais tarde estava em Tenerife.
A Arka Kinari era um enorme veleiro de aço que não andava para trás e que, nos seus melhores momentos, atingia velocidades comparáveis às de uma criança particularmente motivada num triciclo. Era também uma casa, uma oficina, um palco, um sistema energético, um projeto artístico e uma experiência política criada para atravessar oceanos e apresentar um espetáculo audiovisual em comunidades ao longo da viagem, falando sobre petrocapitalismo, fronteiras, alterações climáticas e outras formas possíveis de circular pelo planeta.
Eu entrei como cozinheiro, praticamente sem saber distinguir bombordo de estrabordo, o que não pareceu preocupar muito ninguém.
Assim que saímos da sombra do Teide, o Atlântico encarregou-se das apresentações. O vento aumentou, o barco começou a abanar como um brinquedo nas mãos de uma criança particularmente zangada e eu descobri que cozinhar num veleiro implicava inventar sistemas para me prender ao fogão enquanto tentava impedir que tachos, facas e jantar voassem pela cozinha.
A experiência profissional acumulada em cozinhas quentes, apertadas, barulhentas e suficientemente caóticas acabou por ser estranhamente útil. Para navegar nem por isso, que continuo a acreditar ser uma combinação entre genética e uma dose substancial de sorte, mas para funcionar no meio do caos estava perfeitamente preparado.
Na terceira noite dezenas de peixes voadores começaram a cair no convés. Alguns acertavam na cara de quem estava ao leme e vinte e oito acabaram transformados no ceviche de aniversário do Ben. Na manhã seguinte apareceram outros milhares a fugir de um tubarão junto ao barco, como bandos de estorninhos sobre a superfície do mar.
Uns dias depois chegámos a Mindelo.
Cabo Verde foi provavelmente o primeiro lugar onde percebi que viajar assim não tinha nada a ver com chegar de avião a um destino. Havia tempo para a geografia mudar lentamente, para a luz mudar, para começarem a aparecer barcos no radar, para cheirar terra antes de a ver e para o lugar começar muito antes de se pôr um pé nele.
Tivemos ainda a sorte absurda de chegar durante um dos maiores festivais de teatro de África e Mindelo estava cheio de artistas, música, bares, teatro, poetas e gente na rua. Eu fazia aquilo que sempre fiz relativamente bem, desaparecia do barco, encontrava mercados, campos de futebol, pessoas com quem beber qualquer coisa, donos de bares, músicos e gente que conhecia outra gente e, algumas horas depois, estava sabe-se lá onde. Navegar ainda estava a aprender, mas chegar a um lugar, meter conversa e deixar que as coisas acontecessem nunca tinha sido um problema.
Depois veio a travessia do Atlântico.
Dormia muitas noites no deck, passava horas com o Yann e o Filipe a inventar parvoíces, tínhamos um silly gym, hora do conto e uma quantidade considerável de tempo para descobrir maneiras de não enlouquecer perante um horizonte que durante semanas permanecia rigorosamente igual.
Durante a travessia andava praticamente sempre só de boxers azuis. Não eram os mesmos boxers, tinha vários, acontece apenas que eram todos azuis, detalhe aparentemente demasiado sofisticado para parte da tripulação, que ficou convencida de que eu estava a atravessar o Atlântico sempre com a mesma roupa interior. A dada altura já não me pareceu importante esclarecer a situação.
À noite tinha duas horas sozinho ao leme, normalmente acompanhado por Philip Glass, estrelas suficientes para perceber por que razão passámos milhares de anos a inventar histórias sobre elas e, em algumas noites, um mar completamente aceso.
A bioluminescência rebentava junto ao casco e prolongava-se na nossa esteira, milhares de pequenos pontos de luz que faziam parecer que alguém tinha instalado néons debaixo da Arka Kinari. Quando alguma coisa se movia dentro de água, um peixe, um cardume, às vezes aquilo que imaginávamos ser um animal bastante maior do que gostaríamos, víamos primeiro o desenho luminoso do movimento e só depois tentávamos perceber o que o tinha provocado.
Durante o dia pescávamos. Eu e o Filipe construíamos amostras com restos de cabos e pedaços coloridos de Carnaval, objetos bastante ridículos que, contra qualquer princípio estético da pesca desportiva, funcionavam surpreendentemente bem.
E cada peixe alterava o jantar.
Provisionar um barco para semanas de oceano também me obrigou a reaprender uma série de coisas que julgava saber sobre comida. O nosso espaço de frio servia praticamente para aromáticas e lacticínios, por isso frutas e legumes viviam à temperatura do barco. Nos primeiros dias amadureciam todos ao mesmo tempo e entre o terceiro e o quinto começava normalmente a carnificina, tomates rebentavam, papaias abriam, courgettes desistiam da vida e qualquer peça esquecida numa caixa tentava levar todas as outras consigo.
Tínhamos de retirar tudo diariamente, limpar, separar, cozinhar, fermentar, conservar e decidir o que ia morrer primeiro.
Depois as coisas estabilizavam e comecei a perceber novamente o valor de produtos que nunca tinham passado por cadeia de frio, comprados diretamente em mercados e a produtores. Com as minhas social skills, chegar a um porto significava rapidamente descobrir quem cultivava, quem pescava, quem tinha a melhor fruta e quem tinha um primo com cinquenta quilos de mangas que precisava desesperadamente de vender.
A cozinha da Arka Kinari transformou-se numa espécie de A Venda 2.0, apenas rodeada por milhares de quilómetros de água.
As Caraíbas devolveram-nos terra, gente e contradições.
Na Venezuela, por circunstâncias que numa viagem destas deixam rapidamente de parecer estranhas, acabámos hospedados numa base militar que controlava o narcotráfico naquela zona. No Panamá, ancorámos num porto onde as trabalhadoras do sexo pareciam ser tratadas como uma das mercadorias mais transacionadas. Ao mesmo tempo, atravessávamos o Canal do Panamá rodeados pelos cargueiros e petroleiros que fazem circular fisicamente a economia global e que, vistos a poucos metros de distância a partir de um veleiro, deixam de ser aquela linha abstrata que liga dois pontos num mapa.
Foi também no Panamá que chegámos a Guna Yala.
Algumas das ilhas eram minúsculas e sobrepovoadas, cobertas de casas, barcos, crianças e vida, ao mesmo tempo que os líderes comunitários nos explicavam aquilo que a subida do nível do mar significava para lugares com quase nenhuma distância vertical entre o oceano e a casa de alguém.
Ancorámos a Arka Kinari entre três ilhas para fazer um concerto. O vento fazia o barco girar sobre a âncora e o palco rodava connosco, distribuindo o espetáculo alternadamente por cada uma das ilhas.
Classificar aquilo como estranho seria retirar-lhe magia.
Depois continuámos para o México, onde provavelmente encontrei algumas das pessoas mais generosas da viagem e, em simultâneo, descobri que a generosidade das pessoas não impedia que tivéssemos de subornar a polícia para conseguir abastecer o barco de comida fresca antes de partir para o Havai. As duas coisas cabiam perfeitamente no mesmo país e, a essa altura, já me parecia bastante mais suspeito quando um lugar não apresentava contradições.
Em Puerto Ángel chegámos a uma pequena comunidade piscatória construída em torno de uma baía com uma praia tão inclinada que os pescadores usavam as ondas para ganhar velocidade e fazer subir os barcos pela areia. Havia um certo orgulho naquilo e provavelmente alguma competição para ver quem conseguia deixar o barco mais acima.
O molhe estava cheio de peixe e crianças a pescar e, poucos metros atrás, havia um campo de futebol de rua. Cada jogador metia trinta pesos, o árbitro ficava com o dinheiro e no fim distribuía o prémio pela equipa vencedora. Esfolei os pés e os joelhos, ganhámos e a minha parte pagou uma Victoria para mim e uma Corona para um jogador da equipa que perdeu.
Umas horas antes de chegarmos, centenas de golfinhos tinham rodeado o barco. Salto, mergulho sincronizado e corrida em velocidade eram as modalidades. Pelo meio, dezenas de raias participavam numa competição de mortais encarpados.
Mais tarde abrimos as telas, ligámos o sistema de som e fizemos o concerto.
Espetáculos como estes e comunidades como estas não coexistem com o capitalismo fóssil.
Entre o México e o Havai apareceu Socorro, um daqueles lugares onde o mar ainda se parecia com a imagem de abundância que aprendemos nos oceanários e nos documentários sobre vida selvagem. Mantas, tubarões, cardumes, uma concentração de vida que se tornou suficientemente rara para justificar expedições caríssimas de mergulho.
Nós demorámos sete dias a lá chegar.
Os barcos a motor que transportam mergulhadores e turistas fazem a mesma viagem em menos de dois.
Foi também nessa travessia que chegou a pandemia.
Ou aquilo que nós percebíamos como uma pandemia, porque a nossa única ligação regular ao resto do planeta eram mensagens por satélite com cerca de 130 caracteres. Cidades fechadas, fronteiras fechadas, pessoas fechadas em casa, aviões no chão, uma espécie de apocalipse zombie contado através de telegramas.
Nós estávamos no meio do Pacífico, num barco que nem sequer conseguia simplesmente fazer marcha atrás se alguém caísse ao mar, por isso a capacidade de nos preocuparmos com aquilo era relativamente limitada.
Quando chegámos ao Havai, encontrámos um mundo praticamente vazio. Foi em Hilo que vimos o Kwai, outro enorme barco de aço que já conhecíamos de nome.
Transportava pessoas, medicamentos e bens essenciais entre ilhas da Micronésia que não faziam parte das grandes rotas comerciais, precisamente porque não existia volume ou rentabilidade suficientes para interessarem ao sistema de transporte dominante.
Fomos no dinghy confirmar se era mesmo ele e a curiosidade revelou-se mútua. Nós queríamos conhecer o Kwai e eles queriam perceber que raio fazia aquele estranho veleiro de aço ancorado num lugar onde, pela pouca profundidade, parecia impossível estar.
Convidaram-nos a subir, lembraram-se das regras da pandemia, perceberam que nem eles nem nós tínhamos grande possibilidade de estar infetados porque ambas as tripulações vinham de passar mais de um mês no mar e, mesmo assim, decidimos não arriscar.
Espetei um remo num tubo do casco do Kwai, amarrámos o dinghy ao remo e ficámos ali até ao pôr do sol. Pouco depois, aquele mesmo barco participaria numa operação que retirou mais de cem toneladas de plástico, redes e outros resíduos do Pacífico.
Passámos cerca de um mês no Havai e saímos sem saber onde nos deixariam voltar a pisar terra. Parte da tripulação estava prestes a ficar ilegal e estávamos entre uma pandemia global e a época de tufões.
Quando saí, estava preparado para a possibilidade de passarmos 90 dias no mar.
Vinte e dois dias depois encontrámos Taka, um atol desabitado nas Ilhas Marshall.
Eu e o Grey fomos no dinghy à frente da Arka Kinari a mapear a passagem entre os corais e, depois de conseguirmos entrar, ainda navegámos quase uma hora dentro do atol até encontrarmos o banco de areia que nos pareceu mais verde.
Água turquesa, centenas de aves, peixes voadores, golfinhos, tubarões de ponta negra bebés nos baixios e duas tartarugas gigantes a acasalar enquanto tentávamos almoçar.
Debaixo de água havia amêijoas gigantes com quase um metro de diâmetro, lagostas, moreias, corais laranja, amarelos, verdes e roxos e tubarões a descansar entre as rochas. Na ilha construímos mesas, armários e camas de rede com restos de velas encontrados na praia, fizemos fornos polinésios, reparámos o barco, celebrámos o aniversário do Yann e organizámos corridas de pequenos veleiros e caranguejos ermitas ao pôr do sol.
Ao sexto dia apareceram cinco pescadores marshalenses.
Tinham vindo de outro atol e andavam a retirar madeira de um enorme cargueiro chinês encalhado na barreira de coral para construir casas e barcos. Deixámos-lhes fish tacos, melão e a fogueira acesa e combinámos ir pescar juntos no dia seguinte.
Entre o que eles apanharam, o que nós apanhámos, lagostas, amêijoas e dois coconut crabs, regressámos com quase trinta quilos de comida.
Depois o capitão, Ragu, falou com o presidente do atol onde viviam.
Por terem estado connosco teriam de fazer quinze dias de quarentena em Taka. Uma ilha desabitada, sem água potável.
Passámos os dias seguintes a escrever para presidentes, ministros e instituições até os deixarem regressar a casa. Nós fomos mais ou menos expulsos.
Na verdade não fomos expulsos. Era domingo e demos de frosques antes que o barco- patrulha chegasse.
Antes de sairmos, parte da tripulação ainda foi explorar o cargueiro chinês, um monólito de dimensões absurdas espetado no coral. Eu achei que entrar num barco abandonado onde não havia nada que me interessasse era uma forma bastante pouco produtiva de passar a manhã e fiquei na Arka Kinari a fazer brioches japoneses cozidos a vapor para rechear com lagosta.
A Claire voltou com material de canalização. Pouco depois já estava instalado no nosso barco.
Saímos de Taka e atravessámos praticamente toda a extensão das Ilhas Marshall até à outra extremidade do arquipélago, onde encontrámos um novo atol para nos esconder enquanto tentávamos perceber se existia algum lugar no Pacífico onde nos deixassem entrar.
Uma das ilhas desse atol tinha sido habitada algumas décadas antes, durante o período dos testes nucleares norte-americanos, e estava agora cheia de destroços, porcos selvagens e milhares de moscas. A humidade era sufocante e ainda restavam uma igreja, alguns poços e os vestígios de quem tinha vivido ali.
Bastava atravessar alguns metros de água para tudo mudar. As outras ilhas pareciam outro planeta, com corais gigantes, fruta-pão, cocos, peixes Napoleão, as maiores garoupas que tinha visto, coconut crabs com décadas de vida e tubarões maiores do que nós a tentar roubar-nos o peixe durante os mergulhos.
Entretanto o motor avariou.
Entre nós e a Indonésia estavam as doldrums, onde podíamos passar semanas sem vento em plena época de tufões, e começámos a pedir autorização para entrar em vários territórios da Micronésia.
A resposta era invariavelmente NÃO.
Tendo em conta a história destas ilhas com barcos vindos do Ocidente, uma história que demasiadas vezes trouxe doença, violência, ocupação e morte, aquele NÃO não era particularmente difícil de compreender.
Restava Guam.
Quando finalmente chegámos tinham passado 52 dias desde que saímos do Havai.
Durante essas semanas a dimensão do Pacífico começou a tornar-se difícil de explicar. Tudo parecia demasiado grande, sobretudo as nuvens, que cresciam durante o dia até ocuparem o horizonte inteiro e depois se desfaziam em cores absurdas ao pôr do sol.
Num dos raros dias sem vento parámos o barco sobre a região da Fossa das Marianas e saltámos para a água.
Não havia nada à volta.
Se fosse possível pousar os Himalaias no fundo, o Evereste continuaria a mais de dois quilómetros da superfície.
Depois voltámos a bordo e continuámos.
Em Guam passámos seis horas à porta do porto à espera que alguém decidisse se podíamos existir legalmente em terra. A Arka Kinari fazia círculos lentamente enquanto alguns golfinhos nadavam à nossa volta e, quando finalmente nos autorizaram a entrar, dois agentes da alfândega chamados Calvin e Hobes apareceram com comida e bebidas.
Depois voltaram com nove sacos de produtos frescos, um telemóvel, um cartão carregado, um fogão, doze botijas de gás e o contacto de um mecânico.
Ninguém chegou sequer a pedir-nos os passaportes.
Foi através deles, do Will, da Hope e de muitas outras pessoas que começámos a conhecer a comunidade Chamorro e uma história de Guam bastante diferente daquela que aparecia nos mapas norte-americanos. Hope, professora universitária, intelectual e ativista, levou-nos pela ilha, contou-nos histórias da ocupação, mostrou-nos terras apropriadas pelos Estados Unidos e acabou a visita com um jantar em casa, no meio da família e de um jardim tropical, de onde regressámos carregados de fruta e livros.
Durante semanas os mecânicos apareciam para trabalhar e ficavam para jantar, alguém trazia mangas, alguém nos levava a navegar, conhecíamos militares muito novos para quem o exército tinha sido a única forma de sair da vida que tinham pela frente, fazíamos churrascos, mascávamos betel nuts e esperávamos pelas peças do motor.
Cerca de um ano depois de ter entrado na Arka Kinari, a viagem levou-me finalmente à Indonésia.
Nessa altura já me parecia impossível separar a beleza dos lugares da política que os atravessava. Os golfinhos, as mantas, as noites com o mar aceso, os corais, os tubarões, as ilhas cobertas de coqueiros e as nuvens megalómanas do Pacífico existiam ao lado dos cargueiros, do plástico, dos testes nucleares, da pesca industrial, das fronteiras, das bases militares, dos territórios ocupados e das comunidades que tentavam preservar aquilo que lhes restava.
Foi aí que comecei a escrever mais diretamente sobre o Antropoceno, o capitalismo fóssil e o choque entre um sistema económico baseado em circulação e crescimento ilimitados e um planeta com capacidades regenerativas limitadas.
O mar não nos pertence, amigos, e era bom que continuasse assim, embora já não seja possível.
A história podia ter acabado aí.
Pouco mais de quatro meses depois de me despedir do Yann em Guam voltei a encontrá-lo por mero acaso em Santa Cruz de Tenerife, exatamente no lugar onde eu próprio tinha entrado na Arka Kinari cerca de um ano antes.
Eu estava a bordo do Avontuur, uma escuna centenária com capacidade para transportar cerca de 110 toneladas de mercadorias à vela, e o Yann tinha acabado de chegar no Lun II, um veleiro norueguês todo em madeira, com forno a lenha e praticamente sem dispositivos mecânicos ou eletrónicos. Tinham saído de Lisboa para atravessar o Atlântico, mas desviaram-se para as Canárias depois de responderem ao pedido de socorro de um barco de refugiados vindo de África.
Nenhum de nós devia ainda estar em Tenerife.
Eu estava preso havia quase duas semanas à espera dos botes salva-vidas necessários para o Avontuur poder atravessar o Atlântico e eles só ali estavam por causa do resgate.
Dois dias depois saímos quase ao mesmo tempo e voltámos a cruzar o Atlântico juntos, desta vez cada um no seu barco, transformando a travessia até Marie-Galante numa espécie de corrida. Durante os primeiros dias ainda falávamos por VHF e depois perdemos o contacto.
Dezassete dias mais tarde reduzimos as velas para não entrar de noite num lugar que não conhecíamos e, quando chegámos a Saint-Louis na manhã seguinte, o Lun II já lá estava.
Tinham chegado cerca de uma hora antes, mas não tinham reduzido as velas durante a noite, por isso, depois de uma discussão perfeitamente imparcial, ficou decidido que o Avontuur tinha ganho.
Eu já tinha comprado uma garrafa de rum como bom perdedor.
Eles compraram outra.
No dia seguinte tivemos de pedir desculpa em quase todos os bares de Saint-Louis até nos voltarem a servir.
O Avontuur tentava demonstrar, de forma muito concreta, que era possível voltar a transportar carga através dos oceanos reduzindo drasticamente a dependência do petróleo.
No porão viajavam café, cacau e rum.
Em Marie-Galante, a minha primeira grande manobra de carga consistiu em meter barris de rum na água e nadar com eles cerca de trezentos metros até ao barco.
Nadei com dois, um de cada vez, ambos cheios com 200 litros de rum.
Depois vieram Caraíbas, América Central, México, Cuba, Florida e Atlântico Norte. Pelo caminho, milhares de andorinhas e alguns beija-flores procuraram abrigo no barco e transformaram o Avontuur numa espécie de motel flutuante; um squall rasgou o outer jib; fizemos os remendos dentro da cozinha porque as ondas tornavam impossível trabalhar no convés e, quando o tempo melhorou, fomos para o bowsprit com arneses, agulhas e um Speedy Stitcher terminar a reparação.
Chegámos aos Açores vinte dias depois de vermos o último pôr do sol desaparecer atrás do horizonte de Miami.
Depois de atravessar oceanos durante cerca de um ano na Arka Kinari e vários meses num cargueiro à vela, a questão que me acompanhava já não era propriamente até onde era possível viajar.
Era o que estávamos a fazer aos lugares para que tudo aquilo que consumimos, vendemos, comemos e desejamos pudesse continuar a viajar por nós.
E foi com essa questão que comecei finalmente a voltar para casa.
Para a Península Ibérica e, mais concretamente, para o Algarve.